Número de unidades caiu de 90 para 59 durante sete anos enquanto bancos estão investindo mais no remoto. Brasil perdeu 37% das agências bancárias nos últimos dez anos (Por Ana Carolina Leal)
A RPT (Região do Polo Têxtil) perdeu 31 agências bancárias entre 2019 e 2025, uma redução de 34,4% no número de unidades físicas. O total caiu de 90 para 59 nas cidades de Americana, Hortolândia, Nova Odessa, Santa Bárbara d’Oeste e Sumaré, segundo levantamento do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) com base em dados do Banco Central.
O estudo foi realizado a pedido do Sindicato dos Bancários de Campinas e Região, que abrange, com exceção de Santa Bárbara d’Oeste, os outros quatro municípios da RPT. No caso da cidade barbarense, os dados foram fornecidos pelo Sindicato dos Bancários de Piracicaba.
O cenário regional acompanha uma tendência nacional. De acordo com o Dieese, o Brasil perdeu 37% das agências bancárias nos últimos dez anos e conta atualmente com pouco mais de 14 mil unidades em funcionamento. Além disso, 638 municípios brasileiros já não possuem nenhuma agência bancária.
Para o presidente do Sindicato dos Bancários de Campinas e Região, Lourival Rodrigues, a redução vai além de uma mudança estrutural impulsionada pela digitalização e pelo uso de ferramentas como o pix.
Segundo ele, o fechamento das unidades físicas tem provocado exclusão financeira, especialmente entre idosos, pessoas com dificuldade de acesso à internet e moradores de regiões mais afastadas. “O discurso da digitalização não pode servir de justificativa para o abandono das cidades. O que estamos vendo é o fechamento de agências mesmo com os bancos registrando lucros elevados. Isso reduz o acesso da população, enfraquece a economia local e sobrecarrega trabalhadores bancários e clientes nas unidades que restam”, afirmou.
Ele também critica o movimento do setor. “Para nós, isso não é evolução. É exclusão. Trata-se de uma estratégia deliberada dos bancos que, mesmo com lucros bilionários, reduzem sua presença física, enxugam equipes e ignoram sua função social. É dever de toda a sociedade reagir a esse cenário”, completa.
Economia - Na avaliação do economista-chefe da G11 Finance, Hugo Garbe, a redução das agências é resultado de uma combinação de fatores econômicos. Entre eles, estão o avanço da digitalização dos serviços financeiros, a busca por redução de custos operacionais por parte dos bancos e o aumento da concorrência com fintechs. Além disso, segundo ele, a menor rentabilidade de algumas unidades físicas também contribui para o fechamento.
Os impactos, porém, não são uniformes. Garbe destaca que, em cidades menores ou com menor desenvolvimento econômico, o fechamento das agências pode afetar diretamente a circulação de recursos, já que essas unidades funcionam como polos de serviços, geração de empregos e fluxo financeiro.
Para a população, especialmente grupos com menor inclusão digital, a redução do atendimento presencial pode dificultar o acesso a serviços básicos, crédito e orientação financeira. Pequenos empresários e comerciantes também podem ser prejudicados, uma vez que dependem do relacionamento direto com gerentes para negociações.
Por outro lado, o economista aponta que há possíveis efeitos positivos no médio prazo, como maior eficiência do sistema financeiro, redução de custos e ampliação do acesso por meios digitais - desde que haja infraestrutura adequada e educação financeira.
Digital - Dados da Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária 2025, realizada pela Deloitte, mostram que 82% das transações bancárias no Brasil já são feitas por canais digitais, como internet banking e aplicativos. Em 2024, foram registradas 208,2 bilhões de transações, um crescimento de 8% em relação ao ano anterior.
Desse total, 75% foram realizadas por meio de celulares. O mobile banking, sozinho, somou 155 bilhões de operações, 20 bilhões a mais que em 2023, alta de 15%.
Em nota enviada ao LIBERAL, a Febraban (Federação Brasileira de Bancos) informou que a abertura ou fechamento de agências é uma decisão individual de cada instituição financeira, dentro de sua política de negócios, não sendo monitorada pela entidade.
A federação destaca ainda que os canais digitais e os caixas eletrônicos são alternativas práticas e seguras, oferecendo praticamente a totalidade das transações disponíveis no sistema bancário. (Fonte: Liberal)