Mulheres negras em conselhos das maiores empresas do País não chegam a 2% do total




Banco do Brasil, Hypera, Petrobras, Telefônica, Ultrapar e Vale estão entre as companhias com mulheres negras em conselho ou diretoria (Por Luciana Dyniewicz) - foto Paulinho Costa feebpr -

Se a participação de mulheres nas lideranças das grandes empresas é baixa, a de mulheres negras é ínfima. Dados do Instituto Ethos mostram que as mulheres negras ocupam 1,8% das cadeiras de conselhos de administração das maiores companhias do País e 3,4% das de diretoria executiva, apesar de serem 22,4% do quadro de funcionários.

A pesquisa do Ethos foi conduzida entre 2023 e 2024 com uma amostra representativa das 1.000 maiores empresas e das 100 maiores instituições financeiras do Brasil. Foram ouvidas 131 companhias.

O levantamento do Estadão localizou, neste ano, apenas cinco mulheres negras em um ou mais cargos dos 1.292 disponíveis em diretorias e conselhos de companhias do Ibovespa. Como não há nenhuma base de dados de autodeclaração racial disponível, é possível que existam outras.

Essas mulheres ocupam hoje oito posições, o que corresponde a 0,6% do total. As empresas que incluem mulheres negras em seu comando são Banco do Brasil, Hypera, Petrobras, Telefônica, Ultrapar e Vale.


O cenário atual diverge pouco do de anos anteriores. Em 2025, o Estadão localizou quatro mulheres em sete posições de seis empresas e, em 2024 e em 2023, cinco mulheres em sete cargos de cinco companhias. No primeiro ano do levantamento – 2022 –, o resultado foi ainda pior: foram encontradas apenas duas mulheres negras ocupando, cada uma, uma das 1.505 posições.

Para a cofundadora do Conselheira101 (organização que trabalha para aumentar a presença de mulheres negras na liderança) Jandaraci Araujo, o modelo “antigo” de seleção de profissionais é um dos motivos por trás da baixa presença de mulheres negras em conselhos de administração. “Continua sendo uma questão de rede de contatos. Isso limita muito a visibilidade. É homem indicando seus amigos.”

Araujo conta que o Conselheira 101 tem feito parceria com fundos de investimento e empresas de recrutamento para tentar mudar esse cenário. Ela afirma ter esperança de que a Lei 15.177 de 2025 – que estabelece a obrigatoriedade de reserva de pelo menos 30% das vagas de conselhos de estatais para mulheres e, desses postos, 30% para mulheres negras ou com deficiência – garanta uma diversidade real na liderança do mercado corporativo. A regra deve ampliar o número de mulheres negras com experiência em conselho, diz Araujo.

A executiva, que é presidente do conselho do Museu Afro Brasil, acrescenta que os fundos de pensão também precisam ser cobrados para ampliarem a diversidade nas empresas em que investem.

De acordo com a gestora executiva do Mulher 360 – um movimento empresarial que trabalha por empoderamento feminino e equidade de gênero –, Margareth Goldenberg, a agenda racial e a LGBTQIA+ foram a que tiveram maiores retrocessos desde que a onda anti-diversidade ganhou força, com a eleição do presidente americano Donald Trump.

Goldenberg também aponta a forma como conselheiros são selecionados como um dos maiores entraves para se ampliar a diversidade racial. “O olhar que se tem ainda é muito restritivo. Aquela questão de que a diversidade cognitiva e de experiência agrega está no discurso, mas as pessoas continuam querendo quem passou por grandes companhias. Não abrem portas para quem teve desigualdade de oportunidade ao longo da vida profissional e não se arriscam a trazer alguém realmente diverso.” (Fonte: Estadão)

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