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03/08/2026

Por que o Bradesco vai levantar R$ 10 bi? Presidente explica; BTG e Citi veem oportunidades e riscos

Banco anunciou um aumento de capital por meio de subscrição de novas ações e operação levanta dúvidas no mercado (Por Luisa Laval) - foto Paulinho Costa feebpr -

Resumo
O Bradesco anunciou um aumento de capital de até R$ 10 bilhões, com acionistas controladores comprometendo R$ 8 bilhões. O objetivo é fortalecer investimentos em tecnologia e digitalização. A emissão de novas ações ocorrerá entre 6 de agosto e 4 de setembro. O BTG Pactual vê a medida como positiva a médio prazo, enquanto o Citi sugere que pode ser uma resposta a condições de mercado. O Bradesco também antecipará R$ 6,5 bilhões em juros sobre capital próprio para apoiar a subscrição das ações.

O presidente do Bradesco (BBDC3; BBDC4), Marcelo Noronha, afirmou que as acionistas controladoras decidiram colocar mais capital no banco após o retorno sobre patrimônio (ROE) ter superado o custo de capital e também por projetarem queda na Selic em 2026 e no próximo. A declaração foi feita durante podcast para comentar a aprovação do aumento de capital de até R$ 10 bilhões a partir da emissão de novas ações, conforme fato relevante divulgado na noite de quarta-feira (29).

Os acionistas controladores do Bradesco se comprometeram a colocar até R$ 8 bilhões na operação, conforme o comunicado do banco ao mercado. Com a aprovação do Conselho de Administração, o capital social do Bradesco será elevado de R$ 93,770 bilhões para até R$ 103,770 bilhões, com a emissão de até 302.876.396 novas ações ordinárias (ON) e de até 301.976.357 novas ações preferenciais (PN), ao preço de emissão de R$ 15,43 por ação ON e R$ 17,64 por ação PN, dentro do limite do capital autorizado.

O período de exercício do direito de preferência será de 6 de agosto a 4 de setembro, na proporção de 5,721967934% sobre as ações da mesma espécie que o acionista possuir em 4 de agosto. As ações emitidas passarão a ser negociadas “ex-direito de subscrição” a partir do dia seguinte (5). As sobras não subscritas serão rateadas entre os interessados que mostraram interesse durante o período de direito de preferência.

Bradesco: investimentos em tecnologia e digitalização das operações
“Nossas acionistas controladoras são bem capitalizadas e resolveram aumentar seu investimento no banco”, disse Noronha. “Elas estão confiantes no nosso plano de transformação e esse aumento de capital será dinheiro novo que entrará, impulsionando ainda mais a nossa capacidade de execução da transformação, seus investimentos e a nossa capacidade de crescimento”, acrescentou.

No comunicado, o Bradesco anunciou o objetivo é “fortalecer a continuidade dos investimentos estratégicos e a geração de valor para a sociedade e seus acionistas”. A empresa está no meio de um plano estratégico iniciado em 2024, depois de ter enfrentado pressão estrutural na rentabilidade. O processo inclui uma série de investimentos em tecnologia e digitalização das operações.

Na avaliação da administração da instituição financeira, os R$ 10 bilhões sustentarão o ritmo em investimentos estratégicos em tecnologia, eficiência comercial, expansão dos negócios.

Banco antecipa JCP para financiar acionistas na subscrição das novas ações
No mesmo comunicado, o Bradesco informou que além dos juros sobre capital próprio (JCP) deliberados em 18 de dezembro de 2025 e que serão pagos no dia 31 de julho, a diretoria propôs ao Conselho de Administração a antecipação dos pagamentos de JCP, decididos em 25 de março e 23 de junho. Assim, os acionistas receberão o total de R$ 6,5 bilhões em JCP em 15 de setembro, o equivalente ao valor líquido de R$ 0,483175093 por ações ON e R$ 0,531492602 por ação PN.

Noronha disse que a antecipação busca fornecer recursos para que os acionistas utilizem na própria subscrição das ações.

O Bradesco divulgará os resultados do segundo trimestre de 2026 (2T26) no próximo dia 5 de agosto, após o fechamento dos mercados, com teleconferência no dia seguinte. A expectativa é de que a instituição informe um lucro de R$ 7 bilhões no período, de acordo com a média das estimativas das oito casas consultadas pelo Prévias Broadcast (Safra, JPMorgan, Itaú BBA, UBS BB, Goldman Sachs, Citi, BTG Pactual e XP).

BTG e Citi têm mais dúvidas do que certezas sobre a operação
O BTG Pactual (BPAC11) avalia que o aumento de capital tende a ser construtivo no médio prazo por reforçar a geração de capital tangível, ponto considerado central para melhorar o RoE, embora a reação inicial do mercado financeiro possa divergir. No início da tarde desta quinta-feira (30), as ações BBDC3 recuavam 0,94%, a R$ 15,89, enquanto BBDC4 caíam 0,33%, a R$ 18,29.

Investidores do Bradesco que entrarem no preço da preferencial (PN) estariam comprando com desconto de 4% ante a última cotação, em uma avaliação “pré-money” de 1,08 vez o valor patrimonial, calcula o BTG. Quem exercer integralmente o direito de subscrição não será diluído, enquanto quem não participar pode sofrer diluição máxima de 3,4%, segundo o relatório.

Os analistas Eduardo Rosman, Ricardo Buchpiguel e Antonio Pascale avaliam que a estrutura dá mais segurança de execução do que a tentativa de aumento de capital anunciada no fim de 2015, que acabou cancelada em 2016. Desta vez, como os controladores se comprometeram com até R$ 8 bilhões, a operação fica “ancorada” mesmo que minoritários não subscrevam os R$ 2 bilhões restantes.

O BTG tem recomendação neutra para a ação e preço-alvo de R$ 22, o que implica potencial de alta de 19,9% ante o último fechamento.

O Citi avalia que a oferta pode ser interpretada pelo mercado financeiro como uma medida de oportunidade ou de necessidade. De acordo com as estimativas citadas pelo Citi, se totalmente subscrita, a operação adicionaria cerca de 90 pontos-base ao índice CET1 (que mede o capital mais seguro do banco) pro forma, de aproximadamente 12,7% para 13,6%.

Para os analistas Gustavo Schroden, Brian Flores e Arnon Shirazi, há três leituras principais por trás do movimento.

A primeira, mais construtiva, é a de que o Bradesco estaria agindo diante de uma oportunidade, a partir de uma posição de força, aproveitando um mercado receptivo e o apoio dos controladores para aumentar a flexibilidade de capital e acelerar investimentos que poderiam sustentar o crescimento de resultados no futuro. Nessa visão, a transação poderia ser entendida como um exercício proativo de otimização do balanço, e não como resposta a um estresse imediato.

A segunda interpretação, menos construtiva, é de que a administração estaria buscando levantar capital enquanto as janelas de emissão permanecem abertas. O Citi aponta que o ciclo de crédito segue se deteriorando e que a incerteza sobre qualidade de ativos e provisões continua elevada, o que poderia levar o banco a aproveitar condições favoráveis de mercado para reforçar capital antes de um ambiente potencialmente mais desafiador.

A terceira hipótese apresentada pelo Citi é de que o aumento de capital poderia acelerar a utilização de ativos fiscais diferidos (DTA), ao ampliar a capacidade do Bradesco de crescer ativos ponderados pelo risco e gerar renda tributável, antecipando a realização desses créditos. O Citi afirma ainda que o anúncio concomitante de juros sobre capital próprio pode reforçar a eficiência tributária da transação.

O Citi tem recomendação de compra para as ações do Bradesco. O preço-alvo para os papéis PN é de R$ 21, o que implica em um potencial de valorização de 14,4%, ante o último fechamento. (Fonte: e investidor Estadão)

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