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21/08/2026

HSBC volta a crescer no Brasil com foco em atacado

Dez anos após vender negócio de varejo, instituição financeira prevê operação local maior (Por Fernanda Guimarães) - foto divulgação -

O HSBC espera tornar sua operação no Brasil “muitas vezes maior” nos próximos anos, sem retomar o varejo bancário. A expansão continuará concentrada no atacado, com foco em empresas brasileiras com atuação internacional e multinacionais atendidas pela rede global da instituição. A chegada de companhias chinesas ao país vem sendo uma das frentes desse crescimento.

Esse tipo de demanda tem crescido. O número de clientes chineses ativos atendidos pelo HSBC Brasil aumentou mais de 21% entre dezembro e junho. O banco pode apoiar grupos da China interessados em comprar empresas brasileiras usando tanto seu balanço local quanto a estrutura financeira de unidades no exterior.

“As empresas chinesas também estão vindo para o Brasil. Conseguimos ampliar os serviços prestados a esses clientes aqui”, afirmou Alexandre Guião, presidente do HSBC Brasil, em entrevista ao Valor. A instituição atende essas companhias na China e procura acompanhá-las à medida que avançam em outros mercados, principalmente o brasileiro.

Um dos focos é crescer com o financiamento ao comércio exterior. Além disso, em uma aquisição de empresa brasileira por um grupo chinês, por exemplo, o HSBC pode conceder o crédito por meio de unidades na Ásia, na Europa, no México ou em outros países nos quais atua. Também pode apoiar companhias brasileiras interessadas em captar recursos em Hong Kong ou em outros mercados asiáticos, enumera o executivo.

Para Jorge Arce, presidente do HSBC para a América Latina, a região ganhou importância para a instituição por ocupar uma posição cada vez mais relevante nos negócios de seus clientes globais. O movimento também reflete a reorganização das cadeias de suprimentos e a busca por energia, matérias-primas e capacidade industrial.

“Para nossos clientes globais, Brasil, México e o restante da América Latina são muito importantes. Estamos onde nossos clientes querem que estejamos e onde é importante atendê-los”, afirmou Arce, durante visita ao Brasil na semana passada.

A presença internacional do HSBC também permite atender empresas brasileiras no país e acompanhá-las em mercados como Hong Kong, Reino Unido, México e Estados Unidos, disse.

Guião, por sua vez, acrescentou que o Brasil ganhou espaço como fornecedor em meio às tensões geopolíticas. Segundo ele, o país se beneficia por estar distante da crise no Oriente Médio e conseguiu ampliar suas exportações de petróleo. A capacidade de fornecer commodities agrícolas e minerais, além de energia, e sua posição relativamente neutra nas disputas internacionais reforçam seu papel como alternativa para compradores globais.

Segundo Guião, o HSBC registrou crescimento de 37% no Brasil no primeiro semestre, considerando as receitas locais, depois de avançar 20% no ano passado. O resultado foi puxado principalmente pelos serviços de gestão de caixa e tesouraria.

Neste ano, completa-se uma década da conclusão da venda da operação brasileira de varejo do HSBC ao Bradesco. Desde então, a instituição reconstruiu sua presença no país com foco exclusivo no banco de atacado.

Nesse período, a base do HSBC passou de cerca de 70 para mais de 800 clientes. A equipe aumentou de 45 para mais de 200 funcionários. Segundo Guião, ao considerar também as receitas geradas no exterior com clientes brasileiros, o resultado relacionado a essas empresas mais que dobra.

“No médio prazo, não acredito que exista a intenção de voltar ao varejo. O foco será crescer e continuar conquistando espaço no segmento de atacado”, afirmou Guião.

Para Arce, poucas instituições conseguiram deixar um mercado e retornar com o grau de expansão alcançado pelo HSBC. “Poucos bancos deixam um país e voltam com o sucesso com que voltamos”, disse.

A estratégia brasileira está concentrada no banco transacional, no financiamento ao comércio exterior, na gestão de caixa, na tesouraria e no crédito. No mercado de capitais, a prioridade é o mercado de capitais de dívida externa. A área estrutura operações como emissões de debêntures e títulos de empresas e governos nos mercados local e internacional.

O banco também pretende avançar em financiamentos de aquisições e projetos. Guião citou o pacote de US$ 1,5 bilhão destinado à construção de uma biorrefinaria da Acelen Renováveis na Bahia. O empreendimento produzirá combustível sustentável de aviação e diesel renovável a partir da macaúba. O HSBC atuou como assessor financeiro exclusivo e coordenador global líder do financiamento.

A atuação local não atingirá a área de renda variável ou de fusões e aquisições (M&A). Em uma diretriz global, o HSBC decidiu concentrar as atividades de mercado de capitais de ações e de fusões e aquisições na Ásia e no Oriente Médio, em vez de manter uma plataforma completa nas Américas. No Brasil, o banco poderá conectar empresas a investidores e potenciais compradores dessas regiões. Guião afirmou que a instituição já tem um mandato com esse perfil, mas não revelou o cliente nem os detalhes da transação.

O banco também prevê uma janela para emissões de dívida de empresas brasileiras no mercado internacional em setembro. Segundo Guião, alguns clientes poderão acessar o mercado externo nos próximos 30 a 60 dias.

Como sinais do interesse estrangeiro, o executivo citou as emissões soberanas feitas pelo Brasil neste ano e uma operação recente de gestão de passivos da CSN.

No mercado de crédito, a manutenção dos juros altos por um período prolongado levou o HSBC a se tornar mais seletivo. Guião reconheceu que o ambiente contribuiu para o aumento da inadimplência e das dificuldades financeiras de algumas empresas. “Quanto mais tempo os juros permanecerem elevados, mais tempo haverá desafios no mercado”, disse.

Segundo o executivo, o banco revisou seu portfólio dado o atual contexto macroeconômico, mas a maior cautela na concessão de crédito não impediu o crescimento dos negócios. O HSBC vê oportunidades principalmente em infraestrutura, petróleo e gás e agronegócio. Guião observou que o setor agrícola foi bastante afetado pelo ambiente recente, mas ainda oferece oportunidades.

Para Arce, a manutenção dos mercados de crédito e de capitais em funcionamento, mesmo com taxas elevadas, demonstra a resiliência da economia brasileira. “Seria melhor para a economia ter juros menores. Os juros estão realmente muito altos. Apesar disso, a economia continua funcionando”, afirmou.

Arce também destacou que a economia brasileira vai além da produção de commodities. O país, disse, desenvolveu empresas competitivas internacionalmente em áreas como tecnologia e fintechs. “O Brasil se transformou nos últimos 30 anos e criou uma classe de empresas capaz de competir com o mundo”, afirmou. Segundo ele, essas companhias conseguem crescer no país e operar com sucesso em mercados como México e EUA.

Durante reuniões com presidentes e diretores financeiros de empresas brasileiras, Arce encontrou cautela em relação aos juros e às eleições, mas também confiança na capacidade de capturar oportunidades.

Na avaliação dos executivos, o calendário eleitoral pesa mais sobre as decisões dos investidores locais. Arce afirmou que investidores e empresas estrangeiras conhecem as particularidades das eleições brasileiras, enquanto os agentes locais demonstram maior cautela.

“Independentemente de quem vencer a eleição, o Brasil é um mercado extremamente atraente. É um lugar em que as pessoas querem investir”, disse Arce, acrescentando que o país está entre os cinco a dez mercados mais importantes para muitos clientes internacionais do HSBC. (Fonte: Valor Econômico0

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