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18/08/2026

Grandes bancos se blindam contra cenário econômico turvo e ampliam provisão contra calotes

Com Selic ainda alta e inflação persistente, principais bancos do País aumentam provisões contra devedores duvidosos, refletindo um mercado de crédito em deterioração (Por André Marinho)

Resumo
Os principais bancos do Brasil, incluindo Banco do Brasil, Bradesco, Itaú Unibanco e Santander, reforçaram suas provisões contra devedores duvidosos devido à deterioração do mercado de crédito. A Selic alta e a inflação, agravada pela guerra no Oriente Médio, aumentam o endividamento das famílias. O agronegócio e a baixa renda são os mais afetados. Santander e Banco do Brasil enfrentam desafios maiores, enquanto Bradesco e Itaú mostram resiliência. A inadimplência preocupa, mas ajustes nas carteiras são esperados.

Os principais bancos do Brasil reforçaram as estratégias para atravessar o cenário de deterioração do mercado de crédito. Embora o Banco Central tenha dado a largada ao ciclo de corte de juros, os efeitos inflacionários da guerra no Oriente Médio e o desequilíbrio das contas públicas retardam o ritmo do alívio monetário. O resultado é uma Selic ainda restritiva, que eleva o endividamento e o comprometimento de renda das famílias.

Para se blindar em um horizonte mais turvo, Banco do Brasil, Bradesco, Itaú Unibanco e Santander separaram R$ 91,082 bilhões em provisões contra devedores duvidosos (PDD) no primeiro semestre. O número representa um crescimento de 23% em relação a igual período do ano passado, em um cálculo que desconta valores recuperados de créditos já baixados. Essa fórmula, que fornece uma visão mais precisa do provisionamento, é conhecida como custo de crédito.

Parte importante da piora segue concentrada no agronegócio, que enfrenta uma “tempestade perfeita” de volatilidade nos preços de insumos e agora o impacto de um El Niño severo. No entanto, há sinais de pressão também em carteiras de pessoas físicas, principalmente na baixa renda. O governo promoveu um conjunto de programas para incentivar a renegociação dos débitos, no âmbito do Desenrola, mas as medidas pouco mexeram os ponteiros em termos de qualidade dos ativos.

“Estamos vendo movimentos preocupantes em linhas de crédito emergenciais, as taxas rotativas”, afirma o diretor de Economia, Regulação e Produtos da Associação Brasileira de Bancos (ABBC), Everton Gonçalves. “Como a piora está chegando ao emprego e à atividade, isso leva os bancos a ficarem mais cuidadosos na oferta de crédito, porque muda a percepção de risco”, explica.

A abordagem cautelosa responde também à escalada da inadimplência, que já atinge as instituições financeiras. No Santander, que abriu a temporada de balanços, o indicador que considera atrasos acima de 90 dias fechou junho em 3,3%, um aumento de 0,7 ponto porcentual ante igual período do ano passado.

A instituição tem promovido uma rotação no perfil da carteira em direção a linhas mais seguras e com foco na alta renda, mas esse movimento só deve se traduzir em uma melhora na qualidade a partir do ano que vem, na visão de analistas.

Santander e BB sob pressão
Durante teleconferência de resultados, o próprio diretor financeiro do Santander, Carlos Muñiz, apresentou um diagnóstico bem franco da situação. Segundo ele, mudanças contábeis ajudam a explicar o avanço das despesas com PDD, que saltaram 11,5% no comparativo anual do trimestre, para R$ 7,7 bilhões. Mas o executivo também reconheceu o impacto do ambiente macroeconômico mais apertado.


A reorganização do mix de crédito ainda deve manter as provisões elevadas, pelo menos ao longo deste ano, admitiu. “Eu pessoalmente não estou otimista”, comentou. “Se tivesse de colocar uma data (para a melhora na PDD), provavelmente essa data está no começo de 2027, mais do que no final de 2026”, acrescentou Muñiz, que liderou a tele no lugar do recém-chegado novo CEO, Gilson Finkelsztain, ex-B3.

O quadro também é desafiador no Banco do Brasil, que ainda passa por dificuldades em sua maior carteira, a rural. A inadimplência seguiu em trajetória ascendente e fechou junho em 5,61%, ainda puxada pelos atrasos no agro.

Segundo o vice-presidente de Gestão Financeira e Relações com Investidores (CFO) do BB, Geovanne Tobias, as discussões sobre a Medida Provisória de repactuação de R$ 100 bilhões em débitos rurais incentivaram parte dos produtores a suspenderem os pagamentos na esperança de condições mais favoráveis à frente. É o que a literatura econômica chama de “risco moral”.

Com isso, o banco público desembolsou R$ 18,5 bilhões em provisões contra calotes no segundo trimestre, uma expansão de 16,1% em base anual, em termos líquidos. A expectativa é de que, com a MP em operação, esses volumes arrefeçam no segundo semestre e convirjam para o guidance entre R$ 65 bilhões e R$ 70 bilhões, de acordo com Tobias. “Mas não vai cair pela metade”, alertou.

Além do agro, o BB registrou uma degradação também na pessoa física. Em cartões de crédito, a inadimplência deu um pulo de mais de 7 pontos porcentuais na passagem trimestral, a 14,58%. Muitos produtores do agro também são clientes PF, então o aperto acaba “migrando” nas carteiras. Mas o banco também admite ter observado um movimento crescente de reparcelamento de faturas em um público mais amplo.

Itaú e Bradesco mais resilientes
O Bradesco também teve revés na inadimplência PF, mas em um grau consideravelmente menor que o do BB. Em meio ao plano de transformação estratégica capitaneado pelo CEO Marcelo Noronha, o Banco da Cidade de Deus continuou o processo de montagem de uma carteira mais resistente às intempéries econômicas. Como efeito, as linhas com garantias já representam 61% do total.

O Bradesco até elevou os gastos com provisões e viu os atrasos aumentarem, mas em parte devido ao comportamento dos programas de crédito para micro, pequenas e médias empresas (PME) com garantia do governo. Como essas linhas contam com período de carência, algumas safras começam a aparecer só agora nos indicadores de calotes. “Mas isso não preocupa”, comentou Noronha.

Dinâmica semelhante ocorreu no Itaú Unibanco, que manteve a inadimplência acima de 90 dias estacionada em 1,9% por mais um trimestre. Em MPMEs, o indicador subiu para 2% e o banco indicou que deve aumentar mais no terceiro trimestre, antes de estabilizar. Para além disso, o Itaú indicou que as métricas de qualidade devem evoluir sem sobressaltos.

Para o líder de research da Genial Investimentos, Eduardo Nishio, o conjunto dos balanços aponta para uma piora no ciclo. A inflação, ainda forte, pressiona as famílias, enquanto as empresas são afetadas pelos juros elevados. “O cenário de crédito está pior”, diz. (Fonte: Estadão)

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