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30/06/2025

Mercado de trabalho aquecido sustenta reajustes salariais, mas ganho acima da inflação perde força

Números divulgados até agora mostram que o emprego tem surpreendido; trabalhador ainda tem algum poder de barganha, mas aumento dos preços tem corroído parte da renda (Por Luiz Guilherme Gerbelli) - foto Paulinho Costa feebpr - 

Com o mercado de trabalho bastante aquecido, os brasileiros ainda estão conseguindo reajustes salariais acima da inflação neste ano. O aumento só não tem sido maior porque a alta dos preços tem inviabilizado um ganho mais expressivo.

Neste ano, havia a expectativa de que o mercado de trabalho pudesse apresentar alguma desaceleração, mas os números divulgados até agora mostram que o emprego tem surpreendido e segue forte no País, dando algum poder de barganha ao trabalhador na hora da negociação.

Um bom termômetro da força do empregado pode ser apurado pelo salariômetro, um monitoramento realizado pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) feito com as datas-base das negociações salariais. Em abril deste ano, por exemplo, o reajuste nominal mediano foi de 5,7%, e o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) acumulado em 12 meses alcançou 5,2%.

Calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o INPC é utilizado como base para as negociações salariais.

Como comparação, em abril de 2024, o reajuste nominal foi menor, de 4,5%, mas a inflação apurada pelo INPC foi mais baixa, de 3,4%, o que garantiu um ganho real maior. Ou seja, houve uma desaceleração no ganho real (reajuste menos a inflação), de 1,1% em abril do ano passado para 0,5% neste ano.

“Como a inflação está crescendo, as empresas resistem em dar um aumento real muito grande”, diz Helio Zylberstajn, professor sênior da FEA/USP e coordenador do salariômetro.

Em março, o reajuste mediano nominal foi de 5,3% para uma inflação acumulada de 4,9%. No mesmo mês de 2024, o aumento mediano apurado pelo salariômetro foi de 5%, acima do INPC do período (3,9%).

“Em maio, devemos ter um número expressivo, porque é o mês com maior número de negociações do ano. Mais ou menos 20% das negociações ocorrem em maio. É também um mês (de renegociações) de sindicato mais poderosos”, afirma Zylberstajn.

No monitoramento realizado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), também é possível mensurar a força dos trabalhadores nas negociações. Já considerando os dados de maio, os primeiros cinco meses do ano mostram que 78,4% dos reajustes superaram o INPC, e apenas 9% ficaram abaixo.

Mercado de trabalho forte
O mercado de trabalho tem mostrado uma força maior do que a esperada ao longo dos primeiros meses de 2025. Na virada do ano, não estava no radar de boa parte dos analistas que o emprego seguiria com a força que tem sido observada até agora, por causa da projeção de menor crescimento da economia em 2025.

Nesta sexta-feira, 27, o IBGE divulgou que a taxa de desemprego do trimestre encerrado em maio foi de 6,2%. São 103,9 milhões de ocupados no País. Contabilizados pelo Ministério do Trabalho, os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), que consideram apenas o emprego formal, mostram um saldo positivo de 922.362 postos entre janeiro e abril deste ano, pouco inferior ao apurado nos primeiro quatro meses do ano passado (965.566).

“Dá para notar uma perda de tração bem incipiente no acumulado deste ano. É possível ver uma redução da geração de vagas, principalmente para comércio e serviços, que são setores intensivos em mão de obra, mas ainda é um nível de geração de vagas bastante expressivo”, afirma Matheus Ferreira, analista da consultoria Tendências. “Houve uma perda de ímpeto no final de 2024, mas esse movimento não se manteve no início deste ano. Fevereiro e abril tiveram dados muito positivos.”

Com base na Pnad Contínua, a renda real cresceu 3,1% no trimestre encerrado em maio na comparação com o mesmo período do ano anterior. E, em alguns setores com dificuldade de conseguir mão de obra, como é o caso da construção civil, esse aumento foi ainda maior, de 7,7%.

“Temos evidências de um mercado de trabalho apertado, e isso é mais forte em alguns setores, como é o caso da construção civil”, afirma Matheus.

A força do mercado de trabalho tem sido um dos pontos de atenção do Banco Central, que tenta levar a inflação para a meta de 3% num ambiente de uma economia bastante aquecida.

Na ata da reunião em que elevou a taxa básica de juros para 15%, o Comitê de Política Monetária (Copom) destacou “alguma desaceleração nos rendimentos, mas (eles) ainda persistem em patamar elevado, dando suporte ao crescimento da renda ampliada das famílias.”

“Isso ainda mostra a força do mercado de trabalho, e eu ainda vejo crescimento do rendimento em 2025”, afirma Bruno Imaizumi, economista da LCA 4intelligence. “Temos observado, nesses primeiros dados de 2025, uma contribuição maior dos formais do que dos informais, o que ajuda a elevar o rendimento médio do trabalhador. As posições formais tendem a ser mais rentáveis e estáveis.”

E o que esperar?
Por ora, o cenário traçado pelos analistas é de que o mercado de trabalho deve seguir forte até o fim deste ano. “Devemos chegar em dezembro com uma taxa de desemprego historicamente baixa”, afirma Matheus, da Tendências.

Na projeção da LCA, a taxa média de desemprego neste ano deve ser de 6,3%, uma queda em reação aos 6,6% apurados em 2024. A consultoria também estima que a renda real do trabalho deve avançar 3,2% em 2025, após alta de 4,8% no ano passado e 5,1% em 2023.

“É uma desaceleração, mas eu ainda considero esse número forte para um ano em que não havia muitas perspectivas de crescimento”, afirma Imaizumi. (Fonte: Estadão)

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