Bancos deverão apoiar a recuperação econômica e gerar novas oportunidades no pós-pandemia




Em tempos de inovação e de mudança regulatória, instituições oferecem mais produtos, gerando inclusão financeira e bem-estar à população (Por Ana Carla Abrão*) 

Instituições financeiras são motores de crescimento econômico e geração de bem-estar social. Suas atividades de intermediação entre poupança e investimento e de prestação de serviços de pagamentos são, em mercados bem regulados e com bom nível de profundidade, fundamentais para garantir acesso ao crédito em volumes e preços adequados e a transações e serviços financeiros com eficiência. Em tempos de inovação e de mudança regulatória como os que vivemos atualmente mundo afora, essas instituições oferecem mais produtos, gerando inclusão financeira e maior bem-estar à população. É assim no mundo, é assim no Brasil.

A consultoria Oliver Wyman acaba de lançar um estudo em que discute os desafios e as oportunidades que a Europa pós-pandemia irá oferecer às instituições financeiras da região. Ready to Lead – How Banks Can Drive the European Recovery (Prontos para liderar – como os bancos podem impulsionar a recuperação europeia, em tradução livre) discute o papel dos bancos europeus na recuperação econômica do velho continente e os desafios internos para garantir a sustentabilidade de longo prazo das suas operações. Nesse longo prazo, impactos perenes da pandemia se juntam às mudanças impostas pelo cenário competitivo e de inovação.

Resiliência foi a característica principal dos bancos europeus frente à expressiva queda no PIB dos países da região. Os níveis de capital se mostraram adequados e os programas de apoio dos governos federais a empresas e famílias minimizaram os impactos da pandemia sobre os principais indicadores financeiros. Ainda assim, retorno e volume de ativos sofreram quedas de, respectivamente, 11% e 5% onde as medidas de restrição foram mais fortes e as economias são mais expostas.

Observa-se, contudo, a redução recente nos níveis de provisão para perdas e sinais de recuperação do crédito, apontando para dias melhores. Outro desafio relevante foi a mudança no modelo operacional dos bancos. Impensável há dois anos, do dia para a noite o trabalho remoto e a interrupção do atendimento presencial nas agências físicas exigiram uma capacidade de adaptação repentina e intensificada pelo fato de que foram essas as instituições que responderam pelos principais mecanismos de distribuição dos programas públicos de apoio emergencial.

Mas agora, continua o estudo, há novos desafios que os bancos europeus deverão enfrentar para apoiar a recuperação econômica e transformá-la em oportunidade. Primeiramente, na medida em que os programas oficiais de apoio a famílias e empresas forem descontinuados, caberá aos bancos identificar os meios para reduzir os efeitos dessas interrupções sobre seus clientes, minimizando os potenciais impactos sobre os níveis de inadimplência. Aqui, instrumentos de dívida e equity serão igualmente relevantes. Na Europa, fazer isso direito pode significar prevenir perdas de mais de 40 bilhões de euros.

O segundo desafio se vincula às mudanças no mercado de crédito corporativo e ao papel que os bancos terão nesse novo mundo. Novos instrumentos de financiamento não bancário avançam no mercado europeu. Para manter sua relevância, instituições tradicionais terão de se adaptar, provendo apoio aos seus clientes de formas não tradicionais.

A transição para uma economia livre em carbono e as discussões referentes à sustentabilidade climática são outro desafio. Na Europa, estima-se que os investimentos na economia verde poderão atingir 2 trilhões de euros.

Para navegar nessa oportunidade, proatividade será fundamental para administrar potenciais conflitos entre os objetivos climáticos e os retornos financeiros. Da mesma forma, a disrupção vinculada à criação das moedas digitais imporá importante desafio, pois estima-se que entre 10 bilhões de euros e 25 bilhões de euros em retorno estão em risco se as moedas digitais atraírem 20% dos depósitos.

Mas o maior dos desafios ainda será o deslocamento do eixo central dos serviços financeiros para o atendimento aos desejos do consumidor. Essa ainda não é uma equação simples, pois a interseção entre esses desejos e o retorno de curto prazo para o acionista pode não existir. E aqui inovação é a receita para que os bancos possam competir de igual para igual com fintechs e big techs.

Na Europa ou aqui, o pós-pandemia trará mudanças que, como sempre, serão desafios ou oportunidades a depender da reação de cada um. (Fonte: Estadão)

*ECONOMISTA E SÓCIA DA CONSULTORIA OLIVER WYMAN. O ARTIGO REFLETE EXCLUSIVAMENTE A OPINIÃO DA COLUNISTA

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