Inflação já tirou 11 bilhões de reais dos salários dos trabalhadores




País caminha para terceiro ano com reajuste do mínimo sem ganho real

Das contas públicas ao investimento, do crescimento às aplicações, a inflação que ultrapassou 10% ao ano, algo que não se via desde 2016, vai minando a confiança, encolhendo os desejos de consumo e afetando as decisões das empresas.

De acordo com Lucas Assis, da consultoria Tendências, a inflação já comeu cerca de R$ 11,1 bilhões da massa salarial somente pelo avanço dos preços de janeiro a julho deste ano. E o país já caminha para o terceiro ano seguido sem aumento real do salário mínimo.

Com menor poder de compra, as pessoas consomem menos. Investimentos também são postergados, e a economia demora mais para se recuperar. Isso tem implicações visíveis na vida real. Analistas já estimam ritmo menor de queda no desemprego.

Num primeiro momento, a alta da inflação ajuda o governo a controlar o déficit público. Como produtos e serviços ficam mais caros, o imposto embutido no preço aumenta, elevando a arrecadação. Mas o Brasil gasta mais do que arrecada, e a dívida cresce junto com a inflação.

Nos cálculos do economista Fabio Klein, da Tendências Consultoria, o custo anual do serviço da dívida pública — o que se paga de juros para administrar a dívida — aumentou cerca de R$ 280 bilhões neste ano, com o avanço da inflação e a alta de juros.

O índice estava em 4% no início de 2021 e chegou a 10,25% nos 12 meses encerrados em setembro. No mesmo período, a taxa básica de juros, a Selic, saiu de 2% ao ano para 6,25%, exatamente para conter a inflação

“Diferentemente do passado, nas décadas de 1980 e 1990, quando a grande maioria dos títulos da dívida era indexada a juros pré-fixados (sempre inferiores à inflação), 30% dos títulos hoje são indexados à própria inflação”, explica Klein, especialista em contas públicas.

Ele complementa: “Inflação fora de controle, fora da meta, é sinal de um corpo febril, que está acima do seu ponto de equilíbrio e que precisa de remédios amargos”.

Mais custo para investir
Remédio amargo são os juros mais altos para diminuir o ímpeto de consumo, que já está contido com uma inflação de bens essenciais, difíceis de cortar no orçamento, como energia elétrica, gás de cozinha e alimentos.

“O Banco Central está vindo muito devagar (na elevação dos juros). É como frear o carro numa descida: se você pisa no breque logo, ele para, mas se vai devagarinho, ele continua pegando velocidade, que é o que está acontecendo”, afirma Roberto Troster, da Troster & Associados.

Essa combinação de juros e inflação inibe um movimento de retomada do investimento. Quem pensa em construir uma fábrica, trocar o maquinário para ficar mais produtivo, investir em novos produtos e criar emprego olha os preços e os juros e pensa duas vezes. Somente no primeiro trimestre, o custo para investir no Brasil aumentou 15,8%.

“Quanto mais alta a taxa de juros, menor o crescimento. Com juro alto, o dinheiro fica caro e não dá para investir. As famílias não vão comprar seus bens duráveis, comprar um carro ou máquina de lavar, não vão viajar. A indústria não vai pegar dinheiro caro para investir num cenário de grande incerteza ainda”, explica o economista André Braz, coordenador do Índice de Preços ao Consumidor da FGV.

Massa salarial menor
A alta de juros é um dos principais motivos para as consultorias e bancos começarem a estimar o crescimento da economia em 2022 em menos de 1%. “Revisamos nossa projeção de crescimento do PIB de 1,5% para 0,5% em 2022 (em função da taxa de juros mais alta)”, escreveu Mario Mesquita, economista-chefe do Itaú, ao rever suas projeções em meados do mês passado.

Na média, o mercado reduziu as previsões do desempenho do PIB de 2,5% para 1,56% de janeiro para cá. Por causa disso, a taxa de desemprego, que chegaria a 12% nas previsões do banco, subiu para 12,3%.

“É o pior momento para a volta da inflação. Já estamos com desemprego alto. Ele poderia cair mais rapidamente se a taxa de juros estivesse menor”, lamenta a economista Maria Andréia Parente, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Lucas Assis, também da Tendências, calculou o tamanho da perda do poder de consumo do trabalhador. A inflação comeu cerca de R$ 11,1 bilhões da massa salarial somente pelo avanço dos preços de janeiro a julho deste ano:

“E vamos para o terceiro ano seguido sem aumento real do salário mínimo. Com inflação e desemprego altos, parcela relevante dos trabalhadores não está conseguindo reajuste dos salários (que reponha a inflação). Cenário perfeito para reduzir o poder de barganha.”

Para o trabalhador por conta própria, o impacto vem de todos os lados. A alta de 39,60% da gasolina nos últimos 12 meses reduziu os ganhos e o movimento do motorista de aplicativo Manoel Scooby.

Rodando por Brasília desde 2016, ele nunca viu a gasolina tão alta: o preço médio do combustível bateu R$ 6,40 na última pesquisa da Agência Nacional do Petróleo (ANP). Esse custo já fez com que muitos dos seus colegas desistissem de dirigir:

“Antes a gente trabalhava dez horas por dia. Hoje, para fazer o mesmo, é 12 horas. Mas metade fica para a gasolina.” (Fonte: O Sul)

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